Revista Rogate entrevista Padre Mário Spaki

Deus nunca deixou de chamar, nós é que deixamos de ouvir!

Com a Ação Evangelizadora: Cada Comunidade uma Nova Vocação” colocamos nossa confiança no Evangelho

Entrevista exclusiva à revista Rogate – edição 359.

Entusiasmo, confiança e esperança. Essa é a essência desta primeira entrevista de 2018, com padre Mário Spaki, secretário executivo do Regional Sul 2 da CNBB, que nos apresenta a Ação Evangelizadora “Cada Comunidade uma Nova Vocação”. O cerne da ação nos é familiar: “Pedi ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9,38). Jornalista pela PUC-PR e mestre em Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Mario Spaki é padre da Diocese de Ponta Grossa, com quase 15 anos de ministério. Foi vigário na paróquia São José, de Ponta Grossa, por um ano, e reitor do Seminário de Filosofia São José por oito anos. Preside ainda a Comissão dos Presbíteros do Paraná e é secretário da Comissão Nacional dos Presbíteros.

Rogate: Conte-nos um pouco sobre o trabalho na animação vocacional do Regional Sul 2 da CNBB.

Pe. Mário: Entre outras atividades, gostaria de destacar uma que é de especial interesse para a revista Rogate, a Ação Evangelizadora “Cada Comunidade uma Nova Vocação”. Confiante no encorajamento de Jesus “Pedi ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9,38), a Regional Sul 2 iniciará uma ação evangelizadora inédita em prol de vocações para a lgreja. A proposta é simples: que cada comunidade – e só no estado do Paraná, por onde começaremos, são mais de 9.000 -, coloque-se em oração, como um único corpo, pedindo ao Senhor, por intercessão de Nossa Senhora, uma nova vocação para a Igreja. Toda vocação, seja para o sacerdócio, a vida consagrada, a família, a missão … é um dom concedido por Deus, mas também é fruto da comunidade que reza. Além da oração, outro elemento essencial é o testemunho. Os jovens precisam ver e conhecer testemunhos bonitos e pessoas que se dedicam inteiramente ao Senhor com alegria, para que possam se sentir motivados a apostar sua vida nesse mesmo caminho. Diz o Papa Francisco: “É verdade que o jovem sente o chamado do Senhor, mas o chamado é concreto e, na maioria das vezes, é: Quero me tornar como ele ou ela. Existem testemunhos que atraem os jovens. Os testemunhos dos bons sacerdotes e das boas religiosas”, disse também o Papa Francisco.

Como vai se estruturar essa Ação?

Pe. Mário: A Ação vai se desenvolver a partir de dois eixos, considerando as premissas da oração e do testemunho. Então o primeiro eixo é rezar pelas vocações: em todos os encontros/ reuniões da Igreja, começar ou terminar com uma dezena do rosário pelas vocações. Desde assembleias dos Bispos, reuniões de clero, conselhos de pastoral, encontros da catequese, movimentos e orga­nismos …. É importante recordar às pessoas a intenção da oração: pelas vocações. E o segundo eixo é evange­lizar pelas redes sociais. Publicar vídeos breves, densos de vida cristã-presbiteral-reIigiosa­-laical (todas as vocações) nos meios de comunicação, interagindo com os Regionais, Arquidiocese e Dioceses, Paróquias, Pastorais, Movimentos Eclesiais etc. Como Igreja, temos que estar mais presentes nas redes sociais, então esse vai ser um dos pontos principais da ação. Já temos capilaridade, pois muitos dispõem de canais nas diversas redes sociais. Precisamos é usá-los para essa finalidade de forma mais sistemática, dirigida e consciente, sobretudo falando com as crianças, adolescentes e jovens.

Qual é o âmbito da Ação?

Pe. Mário: O ponto de partida dessa grande Ação Evangelizadora será a Semana Santa de 2018, com exceção da Igreja do Regional Sul 4, de Santa Catarina, que iniciará dia 2 de feve­reiro, dia da Vida Consagrada. A partir daí, estender-se-á por todo o ano de 2018, tendo um momento forte no Sínodo, no mês de outubro, com o tema Jovens, fé e discernimento vocacional, e também na Jornada Mundial da Juventude, que terá tema vocacional, e vai além: envolverá o Ano Nacional Vocacional de 2019, sem ter uma data de fechamento. Envolverá 50 dioceses – 20 do Paraná, sendo 2 delas Eparquias Ucranianas, 18 do Rio Grande do Sul, 10 de Santa Catarina, a diocese de Osasco, São Paulo e a de Bafatá, Guiné-Bissau, na África.

Quais os objetivos da Ação a longo prazo?

Pe. Mário: Antes de tudo é preciso afirmar que é uma ação ousada. Mas é preciso ousar. Nosso obje­tivo é unir a Igreja para colocar em prática o versículo: “Pedi ao senhor da messe que envie operários para a sua colheita” (Mateus 9,38), fazendo com que cada comunidade reze com fé e entusiasmo pelas vocações. Dessa forma, fortalecer uma cultura vocacional, um ambiente positivo em que os jovens encontrem condições favoráveis para responder ao chamado de Deus e, desse modo, estimular, aumentar e também cultivar as vocações na Igreja. Ao mesmo tempo, a ação favorece a cada cristão batizado exercer também a sua vocação de ser missionário e evangelizador, ao criar oportunidades para que todos rezem pelas vocações e deem testemunhos de sua vocação.

Como nasceu a ideia dessa ação?

Pe. Mário: Já em 2006, na Diocese de Ponta Grossa (PR), realizamos a Ação “Dobrar os joelhos e renovar a vida”. Naquele ano motivamos o povo para que rezasse pelas vocações, e isso aconteceu. Nas últimas duas décadas a mesma Diocese sempre ordenou um ou dois padres diocesanos anualmente, mas em 2017 foram ordenados seis novos padres. Fazendo uma conta retroativa constata-se que eles vieram daquelas orações. Nas ordenações realizadas desses novos padres, Dom Sérgio Arthur Braschi, Bispo da Diocese, recordou o povo das orações realizadas em 2006, ligando os frutos de hoje às orações daquele ano. Uma outra iniciativa mais ampla aconteceu em 2016, no Paraná: a Ação Missionária 20.000 Bíblias para a África. A ideia era envolver as mais de 100 mil crianças da catequese do Paraná. Depois de assistir aos vídeos sobre a Missão Beato Paulo VI que a Igreja do Paraná abriu no país da Guiné-Bissau, as crianças foram orien­tadas a irem até seus parentes e conhecidos solicitando um real de cada um a fim de reunir dinheiro para aquisição de uma Bíblia. Após poucos meses de atividade em todo o Estado, obtivemos o seguinte resultado: de real e real, atingimos a cifra de RS 1.655.824,67. As crianças mostraram todo seu potencial missionário, saíram a campo, envolveram os adultos, contagiaram a muitos com o seu entusiasmo e alegria e também nos enviaram vídeos … foi algo simplesmente maravilhoso. O valor arreca­dado superou sete vezes o quanto buscávamos.
Há meses estávamos dialogando com os Secretários Executivos da CNBB sobre a presença ainda tímida da Igreja Católica institu­cional nas redes sociais. Somado a isso veio a convocação do Sínodo pelo Papa Francisco.
Numa manhã, não sei precisar o dia, no decorrer de um momento informal com membros da PV/SAV do Paraná na sede do Regional, em Curitiba, experimentei uma forte inspiração que fui anotando a mão, de imediato. Em poucos minutos as anotações resultaram 10 páginas contendo praticamente toda a Ação Evangelizadora “Cada comunidade uma nova vocação”, incluindo esse título. Parecia tudo muito ousado. Depois de uma série de contatos crescentes com bispos, inclusive um telefonema com o Cardeal João Braz de Aviz, enviei em 17 de novembro de 2016 um e-mail aos três bispos da Presidência do Regional Sul 2, no qual escrevi no corpo da mensagem: “Segue em anexo uma proposta quase maluca, mas que, ao meu ver, é realizável e confio plenamente nos resultados!”. A seguir, descrevi a conversa que tinha tido sobre a questão com Dom Agenor Girardi (referencial das vocações no Regional Sul 2) e sua resposta positiva, como também o diálogo com Dom Anuar Battisti (também referencial da Juventude no Regional Sul 2) e a sua forte adesão, inclusive impulsionando a Ação. A resposta dos três bispos da Presidência do Regional àquele e-mail, em momentos distintos, orientava na mesma direção: autorizavam que a proposta fosse inserida na pauta da Assembleia dos Bispos do Paraná para ser discutida com o episcopado. Assim aconteceu no dia 14 de março de 2017. Durante a Assembleia dos Bispos a proposta foi apresentada e aprovada por unanimidade. Posso testemunhar, pois vivi em primeira pessoa: a Ação Evangelizadora, desde o  início, gerou alegria entre os bispos do Paraná.

No âmbito da Ação, o que se entende por vocação? É um projeto que visa as vocações à vida consagrada?
Pe. Mário: Vocações como resposta ao chamado de Deus e serviço à Igreja e à humanidade. Notamos que existe uma certa tensão entre Pastoral Vocacional, mais direcionada às vocações consagradas, e o Serviço de Animação Vocacional, que foca todas as vocações, a partir do batismo. Nós não queremos entrar na “briga”, isto é: seguir a proposta do SAV ou da PV, pois não nos compete optar por uma forma de entendimento ou outra. Nós rezaremos pelas vocações e Deus nos dará aquelas que Ele quiser e como quiser!

Como estimular o surgimento e o cultivo das vocações à vida consagrada na sociedade atual?

Pe. Mário: Seria errado pensarmos que pela nossa intensa oração iremos “encher” os ouvidos de Deus de pedidos e Ele se despertará deu m even­tual “sono” e nos ouvindo, enviará vocações. Não é assim! As nossas orações nos sensibilizam ao chamado divino, que sempre acontece, e criam as condições para que a resposta positiva possa acontecer. Deus nunca deixou de chamar, nós é que deixamos de ouvir. As vocações estão ligadas com o todo da Igreja. Imagino que do mesmo modo que a totalidade dos católicos está se renovando com os impulsos da missionariedade advinda do Documento de Aparecida, posteriormente levada para toda a Igreja pelo Papa Francisco, as vocações à vida consagrada também, ao meu ver, dependem dessa renovação missionária, da Igreja em saída. Além disso, como vida religiosa, é preciso que tenhamos abertura à cultura atual, que não tenhamos medo dos jovens e nem mesmo do mundo. O Papa Francisco, no início deste ano, disse aos integrantes da Pastoral Vocacional da Conferência Episcopal Italiana: É preciso “abrir a porta, perder tempo com os jovens, ter proximidade deles”. Enfim, acredito que a solução para todas as nossas questões seja sempre o Evangelho: com a Ação Evangelizadora “Cada Comuni­dade uma Nova Vocação” estamos colocando nossa confiança no Evangelho. Com isso, não estamos dizendo que a oração pelas vocações seja ausente na Igreja, pois não é. No entanto, a novidade desta Ação Evangelizadora é que nós rezaremos como Igreja, juntos, unidos, como um único corpo. Teremos a força da unidade! Isso fortalecerá a cultura vocacional proporcionando um ambiente favorável para despertar vocações.

Para o senhor, o que precisa ser repensado quanto à animação vocacional se é que consta­ta que há algo nesse sentido?

Pe. Mário: Precisamos investir mais tempo e recursos na dimensão vocacional. É comum as dioceses encarregarem um padre para o trabalho vocacional e, as congregações, uma religiosa para a animação vocacional. Isso é pouco demais! É o todo da diocese e da congregação que precisa zelar pela causa vocacional. Mais: toda a Igreja precisa cuidar das vocações. Também não me parece suficiente fazer­mos propaganda vocacional nos meios de comunicação. As vocações estão ligadas à vida da comunidade e se despertam no contato com os consagrados. Uma nova realidade está vindo à tona: vocações adultas. Está sendo cada vez mais comum jovens e adultos, com cursos universi­tários, que, no exercício da profissão, sentem o chamado de Deus. Para responder a essa cres­cente demanda, a Igreja do Paraná está organi­zando um seminário específico para acompanhar e formar essas vocações adultas.

Como foi o seu despertar vocacional? 

Pe. Mário: Foi numa missão Saletina no ano de 1987, na cidade de lrati, Paraná. Eu já era catequista e participante da comunidade. Desde pequeno eu gostava de rezar o terço ajoelhado ao pé da cama. Lembro-me que eu marcava no calendário os dias que havia rezado e me esforçava para cumprir os 30 mensais. Em 1987, no contato e na convivência com os Missionários Saletinos, fui percebendo dentro de mim a voz de Deus. Naquele momento, com 16 anos, coloquei-me à disposição para ser ministro extraordinário da comunhão. Mas não fui aceito devido à idade. Em todo caso, fazia-me disponível para serviços na comunidade. Depois disso, nos anos seguintes, era comum eu pegar a chave da igreja da minha comunidade do interior de lrati (PR) e ir rezar, sozinho, no decorrer do dia, diante do Santís­simo. E não sei porque, mesmo diante do Santís­simo, eu rezava pedindo a mediação de Nossa Senhora: que ela me empurrasse para aquela vocação que Deus me chamava. Assim, em 15 de dezembro de 1990, num estágio vocacional, antes do qual eu não tinha em mente me tornar sacerdote, depois de um testemunho de um sacerdote eu não tive dúvida. À pergunta do padre reitor se eu deixaria a namorada e a moto, fui decidido na resposta: deixarei com alegria! Em fevereiro de 1991, iniciei um tempo novo em minha vida- entrei no semi­nário-, e o fascínio tem crescido cada vez mais.

Deixe a sua mensagem para os animadores e animadoras vocacionais.

Pe. Mário: O testemunho de alegria dos presbíteros e consagrados é o que convence e arrasta os adolescentes e jovens.

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